Crédito, principal obstáculo do candidato a exportador
Reportagem publicada no DCI - Diário do Comércio e Indústria de 22.06.04
Participa desta reportagem nosso diretor Jenesí Amaral Figueiredo
Clarissa Wahl
Os micros e pequenos empresários têm um grande obstáculo para exportar
seus
produtos e serviços: o crédito às vendas externas.
A dificuldade não é só a obtenção do financiamento, mas também a falta
de
conhecimento. "Os empresários, não conhecendo em profundidade os produtos de
financiamento mais adequados à sua estrutura, acabam cedendo à pressão dos
bancos e comprando um produto mais caro", afirma o administrador de empresas
e diretor gerente da FK Consultoria e Treinamento , Jenesi Amaral
Figueiredo, que vai realizar curso sobre o assunto na semana que vem em São
Paulo.
A dificuldade, diz o diretor da consultoria, não é exclusiva dos
demandantes
e crédito, mas também dos gerentes de agências bancárias
que, muitas vezes,
igualmente desconhecem os próprios produtos voltados ao cliente exportador.
"O cliente jurídico de pequeno porte não está preparado para saber o que
pedir e recebe do banco o que não quer", diz, complementando que tal
situação pode levar o empresário a perder o negócio com seu cliente externo
ou tomar crédito mais caro.
Entre os principais produtos de financiamento oferecidos no mercado,
explica
Figueiredo, estão os Adiantamentos sobre Contrato de Câmbio (ACC), o
Adiantamento sobre Cambiais Entregues (ACE), Pagamento Antecipado, Proex,
BNDES/Exim, Forfaiting, Câmbio Simplificado, Performance de Exportação e
Securitização de Exportação.
Figueiredo lembra que, no momento da venda, o micro e o pequeno
empresário
precisa escolher formas de garantias adequadas para não ficar de mãos
abanando. "Não basta vender, tem de vender com segurança", afirma. O pedido
da carta de crédito, lembra ele, é imprescindível para evitar uma situação
de venda e não recebimento.
Quase um fantasma
O diretor da Brasil-Export , Moacyr Bighetti, vai além. Para ele,
inexiste
crédito para os micros e pequenos. Ele lembra o caso de um cliente, que não
conseguiu financiamento por não ter um histórico de exportação - uma vez que
era sua primeira venda ao exterior - e não ser um cliente fidelizado ao
banco.
Os bancos, explica Bighetti, concedem geralmente um financiamento para
exportações dentro do atual limite de crédito da conta jurídica.
"Se a empresa tem limite de R$ 50 mil, o banco vai propor conceder, por
exemplo, um total de R$ 20 mil (ou US$ 6,3 mil) para exportação, o que é
muito pouco", diz, completando que, apesar de ser um financiamento com juros
bem inferiores - no Proex, a taxa é de 4% ao ano -, não resolve os problemas
desse candidato a exportador.
Informalidade atrapalha
Bighetti lembra ainda o estudo da consultoria
McKinsey , segundo o qual 80%
das empresas brasileiras estão na informalidade.
"Se, por um lado, esses pequenos negócios não pagam impostos, também não
conseguem crédito bancário, já que somente empresas que conseguem comprovar
o real faturamento e em situação regular junto ao fisco podem requerê-lo",
afirma. E, nessa mesma linha, o diretor comenta um estudo da Secretaria de
Comércio Exterior (Secex) o qual revelou que 75% das exportações brasileiras
são feitas por somente 270 empresas.
"Temos, hoje, um total de 17 mil empresas de todos os portes que
exportam.
Se não triplicarmos esse número, o Brasil não terá mais como crescer,
porque
não conseguirá fazer frente à sua balança de pagamentos", alerta, dizendo
que o Brasil só vai aumentar suas exportações se conseguir alargar sua base
de exportadoras.
Entre outras soluções para evitar o entrave do crescimento da economia,
Bighetti diz que o Brasil precisa de uma profunda reforma tributária que
reduza o ingresso à informalidade e de uma diminuição das taxas de juros que
permita acesso mais fácil ao crédito.